segunda-feira, 18 de março de 2019

Dedos em Riste

Dedos em riste, apontados, afiados
Quanta preocupação com o alheio
Porque descrever erros escancarados?
Tantos dedos em riste tal qual tiroteio

Dedo que se converte em língua
Preparadíssima em destilar o ódio
Envenenar o caráter e o deixar à míngua
Nunca deixar subir em qualquer pódio

Será que o medo de se ver é tão grande assim?
Talvez seja insuportável aceitar a si mesmo
Ou tão alheios de si nos encontramos no fim
Que nem olhamos pra si, preferimos ficar a esmo

São tantas questões mal resolvidas
Tantas imperfeições esperando resposta
Inúmeros medos se escondendo nas esquinas
Incontáveis problemas esperando um agora

Mas ao invés de olharmos pra si
Nos esquivamos e olhamos pra fora
Os porquês são inúmeros em mim e em ti
Olhe pra si, deixe os outros viverem
Cada qual o seu agora

sexta-feira, 8 de março de 2019

Oito de Março, Meu Caro

Neste dia se comemora toda mulher
Não apenas as festas e homenagens
Porque elas merecem aplausos de pé
Mas também idas, vindas e passagens

Passagens pelos corredores da dor
Sentida por 129 mulheres queimadas
Passagens pelos corredores morte
Em 2019 mais de 130 assassinadas

Eu, é claro, não me vejo na posição
De elogiá-las por seus feitos heroicos
Porque sou cúmplice da situação
Usufruo dos benefícios históricos

Sou homem e, portanto, co-autor
Do machismo, do feminicídio e da dor
Quantas vezes impedi aquele "bom" senhor
De tratar mal sua companheira com ardor?

Nehuma!

Gostaria que nesta data comemorativa
Para além dos parabéns efervescentes
Pudéssemos ter a pequena iniciativa
De repensar aquelas atitudes latentes

Que não se pronunciem palavras que agridem
Para que não precise existir tantas heroínas
Pois todas já o são somente por existirem
Que sejamos sim iguais, sem medo, sem sina

Que você meu caro, a quem me dirijo
Não repita os erros de seus pais valentões
Que não seja inflexível, implacável, rijo
Que possa coexistir e não ostentar culhões

Que nós homens desçamos do pedestal
de sangue, de carne, de suor feminino
E possamos caminhar juntos, tal qual
Seres humanos que se respeitam
Se amam
Se identificam
Se constroem
Se completam
Se compõe
Em face do desatino

Corações que Amam


Costumo pensar no amor como uma ação
Um substantivo não faz jus ao ato de amar
Amor romântico também me soa como ilusão
Porque amor é cotidiano, receber e também doar

Esse movimento constante e intenso entre partes
Que juntas produzem amor enquanto se atritam
Se constrói entre, no meio, nas similaridades
É sempre uma relação mútua que em dois habitam

E sabe o que muda quando pensamos amor na relação?
Esses dois podem ser qualquer um ou uma coisa qualquer
Uma pessoa, um objeto, um animal ou uma sensação
Desde que recíproca, o amor entre quem doa e quem quer

Por isso que o amor não deve ser dado papel de substantivo
Ele nos compõe, nos define e incrementa as sensações
Nunca nos leva a nada porque não é um objeto ativo
É algo que criamos momentaneamente entre corações

"Matei por que a amava"
"Espanquei porque amo demais esta mulher"
"Se não for para me amar, que se desove numa cova rasa"
"A amo do fundo do coração, ela não me ama porque não quer"

Dar o valor de objeto para uma ação o faz tomar atitudes
Atitudes que não estão no amor e sim na pessoa em questão
Não culpemos um sentimento por nossas vicissitudes
Não amemos irresponsáveis do alcance da nossa mão

Que possamos amar e ser amados enquanto satisfação
Conhecer um ao outro, incontestável e íntima relação
O amor não é um objeto para ser apenas de um, não
É construído mutuamente por mais de um coração

Corações de carne, de gelo, de pedra, inexistentes e invisíveis
Corações que se completam, se contradizem e se enamoram
Corações independentes, responsáveis, conscientes e compatíveis
Corações diferentes que se atritam e, ao amar, se concretizam


Tirinha e inspiração original: Andressa Munhoz

segunda-feira, 4 de março de 2019

Reimagine

Imagine seu desejo mais íntimo
Sua sensação mais estonteante
O pequeno detalhe mais ínfimo
Imagine tudo em uma estante

Imagine como estariam alocados
Cada prateleira cheia de imaginação
Seria por ordem ou talvez bagunçados?
Não importa quão grandes cabem em sua mão

Imagine o céu azul a brilhar diariamente
Imagine o barulho da água sempre a cair
O cantar dos pássaros incessantemente
O vento tocando a pele, refrescante devir

Agora sua imaginação cresce cada vez mais
As delimitações das retas se tornam curvas
O limiar das palavras não mais satisfaz
Os pontos são infinitos e as visões ficam turvas

Agora continue sem mim
Exercite sua imaginação
Nunca ponha a ela um fim
Reimagine toda a criação